O tema “Inteligência Artificial” é amplamente conhecido graças ao massivo número de filmes hollywoodianos de ficção científica, apesar de ainda ser visto sem o aprofundamento necessário para deixarmos de lado as antigas idéias de que trazer consciência a um robô será o marco para o fim dos tempos.

Quando falamos de Inteligência Artificial, é comum compararmos nossa inteligência com uma versão idealizada do que seria uma máquina com a mesma capacidade de processamento. Acabamo esquecendo que nosso cérebro é recheado de convenções que o meio designa para que não sejamos apenas CPUs bípedes. Logo, para que o desenvolvimento de uma reprodução fiel seja possível, precisamos primeiro compreender os nossos próprios processos biológicos.

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Não é de hoje que a idealização de uma máquina pensante vem tomando espaço em nossas mentes. As mídias já buscam retratar o futuro e seu constante avanço tecnológico a algum tempo. Grandes exemplos disso são os muitos filmes, livros, jogos, séries e até mesmo histórias em quadrinhos que tem esse assunto como foco principal ou em algum momento abordaram o tema.

Avanços tecnológicos surpreendentes habitam o imaginário da humanidade a muito
tempo e são retratados em diversas obras de grande referência da cultura popular. Um grande exemplo são filmes como Metrópolis (1927), que é considerado um dos primeiros que envolvem ficção científica e apresentam o convivo de humanos e robôs, e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), onde se abordam os perigos que a Inteligência Artificial pode nos oferecer.

Cena icônica do filme Metropolis

Séries como Black Mirror e Caprica possuem temas interessantes como a associação
de mentes artificiais a corpos humanos e diversas outras tecnologias que ainda são
impossíveis para os dias atuais. Um exemplo disso é a transferência mental, também conhecida como sublimação ou transcendência, que nada mais é do que fazer o upload da nossa mente para um software ou corpo mecânico.

A Representação na Cultura Popular

Tendo em vista grandes nomes da literatura, o escritor Isaac Asimov é considerado
um homem a frente do seu tempo e um visionário, já que várias de suas previsões realmente se tornaram realidade, é também grande mestre da ficção cientifica, responsável por obras como Fundação e Eu, Robô, tem mais de 500 obras publicadas e várias delas foram adaptadas ou serviram de referência para grandes filmes.

Nos quadrinhos temos os super vilões Brainiac e Ultron, o primeiro pertencente a DC
Comics, é uma máquina criada por um computador, aparecendo constantemente como o
antagonista do Superman. O segundo é um personagem da Marvel e inimigo dos Vingadores, um robô que se rebelou contra seu próprio criador e que possui a habilidade de se auto aprimorar e se “replicar”.

GLaDOS (Genetic Lifeform and Disk Operating System) é uma inteligência artificial e grande vilã dos jogos Portal e Portal 2, possui um senso de humor sarcástico e é a responsável pelos testes realizados nos laboratórios Aperture. No endgame é revelado que GLaDOS se corrompeu e assassinou todos os cientistas que faziam parte dos experimentos.

A ficção deixa bem claro como enxergamos de formas diferentes a concepção de uma consciência habitando uma máquina, existem aqueles exemplos de máquinas que conciliariam sua existência à humana e não enxergam os seres humanos como uma ameaça ou fonte de exploração, convivem de forma pacifica e em sociedade.

Como exemplo temos o rabugento e sarcástico Marvin de O Guia do Mochileiro das Galáxias, que apesar de deixar claro sua total falta de empatia com os seres humanos, não possui nenhuma motivação ou interesse em elimina-los, sendo até bastante prestativo aos seus companheiros de viagem, apesar de seu mau humor e depressão constante.

Ilustração com personagens do livro "O guia do Mochileiro das Galáxias" de Douglas Adams. Autor desconhecido

Ainda no universo criado por Douglas Adams temos também o super computador Pensador Profundo, projetado para encontrar a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais, e que cumpre sua função, mas ao final das contas acaba questionando a inteligência de seus próprios criadores.

Por outro lado, temos muito casos de Inteligências Artificiais que enxergariam os humanos como possível ameaça ou até mesmo, fonte de energia, como é mostrado em Matrix (1999), que além de abordar a concepção de Inteligência Artificial, também aborda a ideia de simulação, em um cenário onde as máquinas seriam tão desenvolvidas que criariam uma simulação de um mundo onde manteriam presos todos os humanos, usando-os como fonte de energia.

A Revolução das Máquinas

Mas afinal, se hoje emergisse uma Inteligência Artificial em nossa sociedade, como isso afetaria a vida na Terra? Como enxergaríamos esse novo ser pensante? E ela, como enxergaria a nós? Todas essas questões parecem preocupar alguns cientistas, como o próprio Stephen Hawking que já expressou inúmeras vezes sua opinião divergente a essa necessidade de buscar criar uma nova inteligência que esteja além da orgânica. Afinal, é impossível prever como ela pensaria e se comportaria por ser tratar de algo novo e desconhecido.

De fato um dos encalços para a caminhada rumo a tal desenvolvimento envolvem ética e moral, é difícil prever o comportamento dos humanos, mesmo com todos os testes de cognição realizados até hoje, e apesar de todas as suas tendências e de todo nosso conhecimento sobre o cérebro, ainda nos surpreendemos por diversas vezes com comportamentos que não esperávamos, ou não calculamos vindos de outros seres humanos.

Em Ex Machina: Instinto Artificial (2015), temos a representação de uma Inteligência Artificial da qual Stephen Hawking tanto teme que exista, um ser capaz de seduzir, planejar e executar suas ações de forma calculada e metódica. Reflexo de uma mente brilhante, mas perturbada, desenvolvida pelo cientista Nathan (Oscar Isaac), a robô Ava (Alicia Vikander), é tudo o que devemos temer em uma Inteligência Artificial.

Ava, inteligência artificial de Ex Machina

Manipuladora e sedutora, ela consegue escapar de sua prisão enganando o ingênuo Caleb (Domhnall Gleeson) que a enxerga como outro ser humano, deixando-se apaixonar por ela e caindo em sua armadilha. Ava é o resultado da mente machista e misógina de seu criador, refletindo as ações que ela sofreu e as que ela testemunhou, tornando-a apática aos seres humanos, principalmente os homens.

Como outro exemplo de IA na ficção temos Dolores, da série americana Westworld, baseada no filme homônimo de 1973 (no Brasil, denominado: Westworld: Onde Ninguém Tem Alma) que por sua vez é baseado no livro de Michael Crichton: Westworld.

Dolores, assim como Ava é reflexo de seu criador, no entanto, para desenvolver sua consciência foi preciso de muito mais tempo. Os robôs da série em sua grande maioria não possuem a sagacidade que Ava possui de querer se libertar de seu confinamento, também não possuem a consciência de sua condição de “atrações” no gigantesco parque temático.

O interessante de Westworld é que os robôs não são, num primeiro momento, enxergados como uma ameaça ou como seres superiores a nós, eles foram criados com o único intuito de entreter o público de visitantes do parque. Mas mesmo essas máquinas cheias de travas de segurança são capazes de se libertar das regras estipuladas pelos humanos e de buscarem seguir seus próprios caminhos, mesmo que isso significa passar por cima de alguns seres humanos.

A chave para a consciência na série é a memória. Para Ava em Ex Machina a memória das ações de seu criador contra ela foi a razão de seu ódio por homens e uma de suas motivações a escapar, para Dolores a memória foi a forma pela qual ela conseguiu ter consciência de sua existência. Ambas as personagens sofrem muito até perceberem a natureza de sua existência e ter auto conhecimento, mas a característica mais interessante
talvez seja a forma como passam a enxergar os seres humanos quando atingem a consciência, com a única exceção a forma como Dolores vê a imagem de seu criador, ambas possuem ódio aos seres humanos.

Todas essas representações demonstram que a percepção geral é de que criar uma IA, será o mesmo que criar um ser superior a nós, que em algum momento vai se enxergar preso a convenções criadas por seu próprio criador e possivelmente vai buscar se libertar dessas convenções. Seguindo essa linha de raciocínio, talvez a representação mais crua de uma IA seja o calmo e temível computador de Stanley Kubrick, controlador da nave Discovery One: HAL 9000 (Heuristically programmed Algorithmic Computer, em tradução livre, Computador Algorítmico Heuristicamente Programado), de 2001: Uma Odisseia No Espaço, uma inteligência sem corpo físico capaz de expressar e interpretar emoções, apreciar arte, reconhecer rostos e raciocinar, que veria a nós assim como enxerga o protagonista Dave: apenas uma mera vida orgânica.

2001 Uma odisseia no espaço: O mais clássico de todos os Sci-Fi

A Singularidade Tecnológica

Seria possível avançarmos a tal ponto em que seres humanos seriam enfim dominados pelas máquinas? Baseado no “boom” tecnológico pelo qual estamos passando, acredita-se que este seja um acontecimento eminente e que a humanidade está próxima de alcançar tal singularidade em poucas décadas, mas por enquanto ficamos apenas na teoria e nada se sabe do que vem a seguir além de possibilidades que geram debates constantes, desde os meios para chegarmos até ela, até os perigos que uma mente artificial superior a humana pode oferecer. Vendo por este lado é apenas questão de tempo até que máquinas comecem a pensar como nós, ou por nós.

A ficção nos acostumou com robôs rápidos, letais, indestrutíveis, capazes de ganhar
consciência de si mesmos e escravizar seus criadores. Mas a realidade da Inteligência
Artificial é muito mais terrena e talvez mais interessante para entender nosso cérebro. Uma
das maiores limitações na hora de criar um robô com mente humana é a capacidade de
planejar e possuir o livre arbítrio, algo que permite que os humanos realizem boa parte de
suas conquistas como espécie.

Nenhum robô do mundo, por mais inteligente que seja, é capaz de prever algo
inesperado que não tenha sido programado previamente em seu disco rígido. Na atual
realidade seres como Skynet, um replicante de Blade Runner (1982) ou o cérebro cibernético de Matrix ficariam paralisados diante de uma simples avaria inesperada.

Percebe-se que ainda estamos longe de atingir com tamanha magnitude o que é esperado da Inteligência artificial, mas graças a esses estudos sabemos que estamos no caminho certo e um dia chegaremos lá. A primeira vista ter tamanho controle pode ser considerado brincar de Deus, dar vida a seres inanimados e se aproximar com tanto detalhe de uma mente humana, mas se olharmos toda a história da humanidade e como o ser humano conseguiu dominar a natureza e tudo que nela habita, seria no mínimo irônico que o desfecho seja igual aos filmes, onde a criação subjuga o criador.

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns Amandinha!!
    Um texto excelente e bem conduzido, referências ótimas e bem colocadas. Um texto à altura dessa nossa fixação em pautar questões sobre o real e consciência artificial, afinal essa é uma das grandes paixões de nossas representações. Questões grandiosas, pedem discussões e textos grandiosos. Parabéns!!!

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