Em nosso cotidiano no mundo dos esportes eletrônicos é comum vermos relatos de mulheres que buscam o profissionalismo, claramente sempre há situações de preconceito e machismo nesse meio. Porém desta vez eu trago para vocês a história de uma garota que nos seus dezesseis anos começou a jogar competitivo, mas por inúmeros problemas teve seu sonho desconstruído. No caso, eu.

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Meu percurso começou aos dezesseis anos, em meados de 2010-2011. Eu jogava Dota (Defense of the Ancients), ainda da Blizzard, que era um mapa dentro do Warcraft. Por indicações de amigos e conselhos, vendo que eu tinha capacidade, decidi encarar de frente e ir atrás de um time. Através de contatos, eu conheci as minhas primeiras companheiras. Sim, era um time feminino e eu aceitei entrar em um, justamente, por ter mais conforto e por achar “divertido”.

A minha primeira equipe ficou muito conhecida aqui no Brasil, mesmo estando no início do “profissionalismo”, mas não porque jogávamos bem e sim porque éramos “bonitas” aos olhos da comunidade. Criamos o nosso “espaço”, no meu ponto de vista, de uma maneira errada. A partir da popularidade já estabelecida, fomos convidadas a fazer parte de uma organização de e-Sports, seguida da transação para o Dota 2 da Valve.

Tudo parecia ser maravilhoso, eu tinha “apoio” de uma organização e promessas futuras, o que causava em mim conforto e motivação para aperfeiçoar minhas habilidades em jogo. Mas eu não imaginava que o caminho fosse tão difícil pra ser no mínimo “boa” e “aceitável” no competitivo. Foi neste momento que as coisas começaram a tomar um rumo diferente das minhas expectativas.

A organização que eu entrei era famosa por ter alguns jogadores renomados nos cenários, como por exemplo no League of Legends. Eu perdi um bom tempo da minha vida nesta organização, um pouco mais de um ano. Os donos focavam totalmente na nossa imagem, mais do que realmente na produtividade em jogo. Tínhamos muito mais função de divulgadoras do nome da instituição do que de jogadoras em si. Tendo como exemplo a vez em que nos foi imposto ter fanpage e movimentá-la com a finalidade de divulgação do nome da empresa. Também foi estabelecido que nos apresentássemos como jogadoras profissionais de nível alto, mesmo sabendo que não merecíamos esta intitulação.

O lado “ruim” não era somente pela parte da organização, até porque essa nós resolvíamos fácil, era só sair e pronto. Mas algumas das minhas companheiras de time pensavam mais na imagem pessoal do que em jogabilidade, e eu as segui, por aproximadamente três anos. Um dos motivos é que eu era relativamente nova, com dezesseis anos, sem experiência nenhuma, eu era facilmente influenciada. O outro, é que me tornei muito amiga delas, largar o time tinha quase o mesmo peso de perder amizades.

As situações ruins foram acontecendo cada vez mais. Sofríamos toda a frustração de participar de campeonatos sem nunca conseguir, nem mesmo, passar da primeira fase. Isto fez eu perceber o quanto éramos usadas apenas para imagem, apenas para chamar atenção dos homens e trazer visibilidade para a organização. Eu realmente sonhava em ser uma cyber-atleta e tinha total capacidade para isso, mas cavei minha própria cova tomando decisões erradas.

Depois de sairmos dessa primeira organização, passamos por algumas outras famosas, mas todas elas com o mesmo intuito, usar nossa imagem. Mas como não recebíamos nada para dar visibilidade à empresa pensamos “por que não criarmos nossa própria organização?”. No primeiro momento, parecia uma ideia boa, mas deu tudo ainda mais errado. Além de perdemos tempo com a nossa imagem, perdemos tempo administrando algo totalmente inútil e correndo atrás de coisas que não merecíamos, como por exemplo patrocínio.

O time não durou muito tempo depois disso, mas obviamente aconteceram muitas coisas durante todo esse tempo. Tivemos casos deploráveis de administradores de organizações e jogadores nos assediando e fazendo chantagens. Mas, por sua vez, tinham também aquelas garotas que davam em cima dos “grandes” dentro do cenário só para ganhar algo em troca, ou tentar inflar o ego mesmo. Mas sabemos que isso acontece até hoje em todos os cenários do e-Sport.

Eu falo isso com precisão, presenciei todos esses acontecimentos. O cenário é tóxico, é muita gente querendo passar a perna em você, todos escondendo a poeira por baixo do tapete. As pessoas acreditam em tudo que os jogadores falam, em tudo que as organizações dizem, são pessoas manipuladas, eu era uma delas. Acreditava até começar a me “infiltrar” no meio dos grandes e ficar sabendo das “tretas”.

Depois que o meu primeiro time acabou, me bateu um grande desapontamento e pensei em parar com tudo. Mas logo entrei em outra equipe por influência de amigos e por realmente acreditar no meu potencial, afinal sou br e não desisto nunca (risos). Fiquei aproximadamente 5 meses e pude perceber que lá as coisas eram diferentes, mesmo tendo pouco tempo para treinar. Mesmo assim, a desilusão foi inevitável e no final das contas não era aquilo que eu esperava de um time “profissional”.

Como eu perdi muito tempo com coisas inúteis e depois de tomar muita pedrada, eu perdi totalmente o “tesão” de jogar. Então, decidi parar oficialmente com o competitivo. O pior de tudo é pensar que eu tinha capacidade, eu era boa, eu tinha total condição de crescer. Mas por culpa minha, por ser influenciada, por tomar tanto tapa na cara, eu perdi a vontade de jogar, eu perdi o meu sonho.

Eu consigo contar no dedo as gurias que eu conheci que realmente queriam crescer, que se esforçavam para ser a melhore equipe. Mas eu também posso contar no dedo as pessoas que me ajudaram a crescer, que tentaram me levar para o caminho certo, mesmo eu estando totalmente cega.

Eu gostaria de deixar bem claro que há sim dois lados da moeda. Temos garotas que jogam realmente sem se importar mais com a sua imagem do que com a sua jogabilidade. Mas também têm garotas que são o contrário, pensam mais na imagem e no seu ego do que realmente no competitivo, eu mesma conheci os dois extremos. E sim, existe uma enorme parte da comunidade que joga pedra, que xinga, que tenta de tudo para nos menosprezar, mas também existe a outra parte que nos apoia como mulheres.

Para finalizar, eu gostaria de deixar minhas opiniões para as garotas que querem ingressar no cenário, seja de Dota 2 ou de qualquer outro jogo. Por experiência própria, se você quer realmente crescer, não entre de jeito nenhum em um time exclusivamente feminino, entre em um misto, jogue com homens. Nós mulheres temos a mesma capacidade que os homens têm e eu garanto que será muito melhor para o seu futuro. Você irá tomar muita crítica, muito xingamento, irá passar por muitas coisas, assim como eu passei. Muita gente também vai ficar passando a mão na sua cabeça querendo te influenciar, a fim de ter algo em troca. E não vai achando que isso é só com mulher, acontece a mesma história com homens também que entram no competitivo. Um exemplo clássico, é só você assistir aos campeonatos brasileiros por transmissão ao-vivo, o tanto de críticas e xingamentos que eles tomam. Mas como eu disse anteriormente, a comunidade é tóxica.

Eu sei que assim como eu, muitos têm o sonho de ser um jogador profissional. E o que eu posso passar para vocês com o meu fracasso é: pense muito bem antes de tomar qualquer decisão dentro deste mundo dos esportes eletrônicos, pois além de eu ter perdido o meu sonho, eu também perdi o gosto de jogar Dota. Sei que muitas vezes nos levamos por nossos impulsos e só esperamos coisas boas, mas tenha em mente que dificuldades sempre haverão, e você tem que estar preparado para elas, não fuja, encare.

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