É com grande pesar que às vezes temos que discutir os assuntos pesados, mas relevantes. O escândalo dessa semana começou com o banimento do programa Pânico na Band da CCXP por tempo indefinido. Muitas pessoas se atentaram apenas à nota de repúdio oficializada pela organização do evento, de autoria do Omelete com a Produtora de Eventos Oz. Segue o texto na íntegra.

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CCXP 2015 | Nota de repúdio ao programa Pânico na Band

Na CCXP – Comic Con Experience, todas as pessoas são bem-vindas…

Posted by CCXP – Comic Con Experience on Monday, December 7, 2015

 

Obviamente, com rápida busca no Youtube é possível ver o vídeo na íntegra da participação dos vulgos “repórteres” tanto dentro do evento, como fora do mesmo, assediando convidados internacionais, cosplayers e frequentadores. E a nota já deixa bem claro o resultado. Fora as gafes inespecíficas como atribuir a criação de Batman a Frank Miller ou de importunar e agressivamente criticar as opiniões e gostos de todos no evento, a falta de respeito foi não apenas com os frequentadores, mas também com os organizadores, convidados, ou seja, de comum desrespeito a todos os presentes. Isso não é o foco do que quero comentar aqui.

A discussão é um pouco mais intensa e não envolve apenas os limites do humor, mas os motivos pelo qual tal processo aconteceu. O Pânico na Band é reconhecidamente um programa de cunho machista, homofóbico, racista, misógino, excludente e que reforça estereótipos, um desserviço a educação e informação. Mas o mais importante é que ele representa sim uma grande parcela da população que sustenta uma audiência enorme nesse sentido. Nesse caso vem a discussão: O Brasil está preparado para abrigar um evento de gênero Comic Con Internacional? Será que na verdade os excludentes talvez não estejam nesse público que, apesar de extremamente educado, mente aberta, culturalmente bem preparado, é ainda uma minoria esmagadora em relação aos “apreciadores” do humor “Pânico”?

Pânico entrevista pessoas na CCXP 2015
Repórteres conseguiram ser agressivos de várias formas com TODOS os entrevistados, não apenas casos específicos

O ponto levantado não é apenas para o fato de que culturalmente o Brasil se encontra pobre para abrigar a cultura pop nerd como vertente mercadológica em comparação com outros países do mundo. A exemplo de alguns países asiáticos menos desenvolvidos que também conseguem ter convenções nerds de padrão San Diego Comic Con. Mas o Brasil tem um sério problema de infra-estrutura que vai desde programas como o Pânico até a imprensa tradicional como um todo.

SBT insinua em manchete que nerds são apenas homens
SBT também comete suas gafes sendo chauvinista e excludente com as mulheres nerds/geeks

O problema talvez esteja focado em uma cena mais explícita e sem sentido de assédio, mas é fácil entender que os grandes veículos não estão preparados cultural e sistematicamente para cobrir eventos como esse. Nosso sistema de transporte e burocrático também não, causando muito stress para chegar e sair do evento no São Paulo Expo. Atender um público de mais de 140 mil pessoas entrando e saindo com uma ponte praticamente de pista única é no mínimo risível. As organizações por trás dos taxistas se degladiam judicialmente com o Uber, privando os usuários de mais transporte de qualidade. O transporte público sequer tem acesso a locais de grande circulação, mesmo que um pouco mais afastados. E nenhum desses problemas está ou sequer já esteve sob controle dos organizadores, que de suas melhores intenções tentaram ao máximo trazer a real “experience” da Comic Con International para o Brasil. A questão é se o Brasil está pronto para isso.

Repórteres do Pânico assediam cosplayers da CCXP 2015
Cosplayer estrangeiro é duplamente assediado pela escolha de cosplay e pelo sotaque.

São 55m² de área, 120 estandes, 135 horas de painéis, 120 convidados, 265 artistas e 142 MIL PAGANTES. Um evento como esse, de poder internacional, merecia um pouquinho mais de respeito e visibilidade, de maneira digna e culturalmente inequívoca. Tudo bem, é um evento caro e pode ser considerado excludente. Sua cobertura pode ser considerada um “contra-protesto” de uma população menos abastada. Sim, tem todos esses “poréns” que foram e são comentados nos comentários das redes sociais do evento. Mas, não seria talvez mais interessante tentar promover o evento e trabalhar em formatos de acessibilidade geral para divulgar a cultura do que marginalizá-la como uma cultura, ou excludente, ou de minorias? Será que estamos abertos a esse debate, para além da lambida no ombro da cosplayer – possivelmente menor de idade, de acordo com relatos – tentar pensar uma forma para que isso não seja um incômodo recorrente e sim um acontecimento do passado?

Ou será que vamos ter que banir todos os grandes veículos de mídia e virarmos novamente um “gueto” de nerds excluídos e termos respeito somente dentro de nossos próprios nichos? O que seria a solução? Provavelmente nenhum de nós sabemos de imediato, mas fica a discussão para além da catarse do banimento.

A cena fatídica que mais chamou atenção
A cena fatídica que mais chamou atenção

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