Sherlock não é uma série fácil de se acompanhar. Quando tudo vai bem, você precisa esperar pelo menos um ano para receber em troca 3 episódios de 100 minutos cada. Porém, desde janeiro de 2014, com o final da terceira temporada, os fans vem se contorcendo com a abstinência. A promessa era de que teríamos em 2016 um único episódio para servir de agrado até que a série voltasse em 2017 para o seu quarto ano.

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O episódio se chama The Abominable Bride e deveria ser um especial de Natal ambientado na Londres vitoriana, contexto original onde se passam as aventuras de Holmes e Watson. A reação dos fans foi diversa. Muita gente adorou a ideia. Seria uma ótima oportunidade de ver os diálogos sagazes, e as brilhantes atuações de Benedict Cumberbatch e cia aplicados na estética do século 19. Algumas pessoas, por outro lado, só queriam saber os desdobramentos do excruciante final da terceira temporada. Ter que se contentar com um ”filler” até 2017 parecia uma puta falta de sacanagem.

Sherlock
Poster promocional de Sherlock com design baseado na estética da época.

As cabeças pensantes por trás do show, Mark Gatiss e Steven Moffat, sabiam da dura tarefa que era agradar às duas parcelas da audiência. O resultado dessa empreitada acabou tornando The Abominable Bride o episódio mais confuso de toda a série, mas certamente um dos mais divertidos também.

Após testemunharmos o primeiro encontro de Dr. Watson e Sherlock Holmes, dessa vez em um necrotério escuro e soturno da Londres de 1895, a trama avança para um momento onde ambos já são conhecidos pela população britânica. Seguindo a premissa dos livros de Sir. Arthur Conan Doyle, Watson decide registrar os casos que vão passando pela mão de Holmes.

Sherlock Holmes
A atmosfera da Londres vitoriana é retratada com perfeição na série Sherlock

Esse recurso metalinguístico quase não é utilizado nos outros episódios, mas acaba gerando em The Abominable Bride momentos que vão deixar os fans mais devotos dos cânones com um sorriso bobo no rosto enquanto assistem o episódio. A romantização do vício de Sherlock por morfina e a insatisfação de alguns personagem por não terem a relevância devida nas publicações são alguns dos destaques.

O caso da vez envolve um suicídio seguido por um assassinato, ambos cometidos pela mesma pessoa. Isso mesmo. Emília Nicoletti, a tal noiva do título, estoura seus miolos em frente a uma rua cheia de pessoas para depois ser vista, horas mais tarde, executando o próprio marido quando ele saía de uma casa de ópio. Uma visita rápida ao necrotério comprova o fato de que Emília está realmente morta, e testemunhas no local afirmam que era ela mesma que manejava a espingarda que matou o Sr. Nicoletti. O pergunta que paira durante boa parte do episódio: Como é possível uma pessoa sobreviver a um tiro que lhe arranca metade da cabeça?

The Abominable Bride em Sherlock
Como ela pode matar o marido depois de morta?

Durante os primeiros 60 minutos o episódio segue como qualquer outro da série, exceto pelo figurino de época, locações e piadas sobre segregação de gênero. É no primeiro confronto que Holmes tem com Moriarty onde os escritores demonstram suas intenções em resolver aquele impasse que eu expus no começo do texto. O recurso no qual o episódio se apoia a partir daí vai lembrar em muito o filme A Origem, de Christopher Nolan. Caso você não tenha receio em queimar alguns neurônios a mais tentando descobrir quando tudo se trata de um sonho, e quando se trata da realidade, saiba que esse episódio vai se mostrar um desafio e tanto.

E falando em desafio, é muito difícil não se impressionar toda vez que o Moriarty de Andrew Scott se coloca perante Sherlock Holmes na intenção de levar nosso “heroi” ao abismo de sua própria consciência. O Napoleão do crime está morto tanto na versão moderna, o que ocorreu no fim da segunda temporada, quanto na versão do século 19, onde seu corpo se perdeu nas águas ao cair da cachoeira de Reichenbach. Mas para Sherlock ele sempre estará vivo, habitando o seu subconsciente, esperando um momento de fraqueza ou dúvida do maior detetive do mundo para voltar à superfície.

Sherlock e Moriarty
Sherlock e Moriarty na queda de Reichenbach. Grande momento do episódio.

Fica aqui a minha sugestão: assista ao episódio no mínimo duas vezes. É de conhecimento geral o quanto os criadores da série são apaixonados pelo obra máxima de Conan Doyle. Então espere o dobro de referências aos livros para esse episódio especial. Para se ter uma ideia, é nesse episódio em que a frase “Elementar, meu caro Watson” é dita pela primeira vez em todos os 5 anos de show.

Quando The Abominable Bride chega ao fim, você fica com a sensação de que pelo menos uma pergunta muito importante, que ficou no ar com o fim da terceira temporada, foi respondida. É só uma pena que essa necessidade de conclusão que orientou os escritores durante toda a confecção da trama acabe comprometendo a qualidade de um dos fatores mais importante que tornaram a série no que ela é hoje: a resolução de um bom caso da semana.

Sem tulo
Sua reação ao terminar o episódio The Abominable Bride pela primeira vez.

 

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